Porto Velho, Rondônia - Dois depoimentos colhidos na
tarde desta quarta-feira, no plenarinho da Assembleia Legislativa, na
sessão da Comissão Parlamentar Processante Provisória (CPPP), que apura a
suposta quebra de decoro parlamentar, dos cinco deputados estaduais
investigados durante a Operação Apocalipse, podem ter sido decisivos
para o futuro político da deputada estadual Ana da 8 (PTdoB).
Isaías Santana, vereador em Nova Mamoré e ex-coordenador de campanha,
junto com o advogado e ex-assessor da parlamentar, Reginaldo Ferreira,
desmentiram a tese de defesa da investigada e complicaram ainda mais a
situação da deputada.
Se a intenção da deputada Ana da 8 (PTdoB) era afastar qualquer
perigo de punição na Assembleia, jogando sobre seus ex-assessores as
reponsabilidades por eventuais irregularidades durante a campanha, a
situação parece ter se invertido após os dois depoimentos.
O curioso é que até os advogados da parlamentar, que insistiam tanto
na apresentação de pelo menos uma das testemunhas, o tabelião Vinicius
Alexandre Godoy, apresentaram requerimento, ao meio dia da quarta-feira,
alegando impossibilidade de comparecer à sessão e pedindo o adiamento
dos depoimentos, sendo rejeitado.
Primeiro a ser ouvido, Vinicius Godoy, convocado pela defesa da
deputada Ana da 8, por ser em seu cartório que teria sido autenticado um
termo de compromisso entre a então candidata e o suposto traficante e
estelionatário, Alberto Ferreira de Siqueira, o Beto Baba, que loteava
cargos no gabinete da futura parlamentar.
“Me manifestei na Polícia Civil, na Polícia Federal e no Ministério
Público sobre este fato e não tem como atestar a veracidade das
assinaturas, uma vez que os originais nunca foram apresentado”, disse a
testemunha.
Ele confirmou que Ana da 8 tem cartão de autógrafos no cartório e
reforçou que só se reconhece firma em cópias, com a apresentação dos
documentos originais. “O cartório só entra no mérito quando o cartório é
parte legal. Reconhecer assinatura, a pessoa só quer que seja
confirmada essa veracidade da assinatura, não ficando nada arquivado no
cartório”, observou.
Em depoimento na CPPP, como informante, Luciana Dermami, irmã de Ana
da 8, que também tem a assinatura no documento, assegurou que a
parlamentar não possuiria cartão de autógrafos no cartório, o que
levantou suspeita de falsificação do documento.
O tabelião relatou ainda “esse documento (o termo de compromisso)
pode ser uma montagem. O fato é que não tem como afirmar que esse
carimbo seja autêntico, já que trata-se de uma cópia e muita coisa pode
ter sido modificada”.
Foi apresentada ainda uma cópia de uma suposta quitação da dívida,
entre Ana da 8 e Beto Baba. “Não tem como afirmar, repito, pois trata-se
de cópia. E um estelionatário pode destacar o selo e coloca-lo em outro
documento. Com base nos selos, seria possível identificar o mês em que
foram emitidos, mas estão ilegíveis os números”, afirmou.
Godoy reforçou que embora haja semelhança nas assinaturas e carimbos,
“há uma situação estranha nas cópias, com tudo feito muito certinho,
com as assinaturas do lado esquerdo, o que não é comum. Pode ter havido
uma falsificação, mas somente uma perícia, nos originais, poderia
atestar se houve ou não”.
Ex-coordenador confirma acordo
Convocado pelos membros da Comissão Processante, o ex-coordenador
geral da campanha da deputada Ana da 8, Isaías Santana, prestou
informações. “Na campanha, a candidata tinha chances e assumi esse
compromisso de ajuda-la. Sem dinheiro, faltava tudo e quase ninguém
apoiando”, disse.
Segundo ele, “através da deputada, o Beto Baba entrou na campanha e
com dinheiro, tudo ficou mais fácil e chegou mais gente. Não fui atrás
de dinheiro, nem de ninguém. Se eu tivesse essa força, eu mesmo sairia
candidato”.
Ele denunciou que “quando o Beto Baba chegou, pelo menos 80% dessas
pessoas eram pagos com recibos e estão todos nas mãos da Polícia
Federal. Foi feito um acerto entre Ana da 8 e Beto Baba, para R$ 150 mil
para material gráfico. Mas, a campanha foi aumentando e esse valor
passou de R$ 450 mil. Também foram alugados 12 carros, todos plotados.
Campanha pobre não aluga tantos veículos”.
Ele negou conhecer o Fernando Braga Serrão, o Fernando da Gata, mas
confirmou que houve um suposto caixa dois na campanha da parlamentar
investigada. “Essas remessas iam sendo repassadas pelo Beto Baba,
inclusive em depósitos e transferências para a irmã de Ana da 8. Todo
material gráfico foi custeado por Beto Baba”, afirmou.
Ao ser apresentada a cópia do documento firmando o compromisso para
que a deputada loteasse cargos em seu gabinete, para quitar a dívida com
Beto Baba, Santana declarou que assinou o documento, junto com Ana da
8, Beto Baba e Luciana Dermani, irmã da parlamentar. “Fui ao cartório e
assinamos. Só tem um documento original e quem está com ele é o Beto
Baba. Tudo que está no documento é a verdade, é o compromisso que foi
feito. Ela negociou mesmo o mandato”, denunciou.
Isaías Santana reforçou que “não tínhamos nem santinho para
trabalhar. Começou sem nada e terminamos com uma campanha com material,
com gente e recursos. Fez o acordo, recebeu dinheiro, mas depois deu
problema para pagar”.
O ex-coordenador relatou ainda que o contato que tinha com Beto Baba,
durante a campanha, foi apenas para tratar de assuntos eleitorais. Ele
disse ainda que nunca foi nomeado na Assembleia Legislativa, na atual
legislatura.
“Eu era vereador e já eleito presidente da Câmara Municipal de Nova
Mamoré. Em troca da minha dedicação na campanha, o acordo era que, caso
eleita, que ela destinasse emendas para Nova Mamoré e falasse em meu
nome. Depois de eleita, a Ana da 8 tratou de me isolar, não sei o
motivo”, denunciou.
De acordo com Santana, “havia sim compromisso de dar cargos a quem
trabalhou na campanha. Inclusive um irmão meu ficou nomeado aqui na
Assembleia, por seis meses. Uma cunhada também. A deputada havia se
comprometido a nomear gente no Governo também. Isso ocorre em todas as
eleições: quem trabalha na campanha, sonha com um cargo no futuro”.
Advogado confirma acordo de pagamento
O advogado Reginaldo Ferreira, que prestou serviços jurídicos na
campanha da deputada Ana da 8, foi ouvido e relatou que “durante a
campanha, eu não estava nas ruas. Fiquei restrito ajudando pessoas e a
candidata. Nunca tratei de dinheiro com ninguém e se soubesse de algo
ilegal, não iria compactuar com isso”.
Segundo ele, “fui chamado pela deputada, já no exercício do mandato,
para tentar resolver a situação desse acordo com o Beto Baba, que até
então eu desconhecia. Ele teria ido à residência da parlamentar e
cobrado o pagamento do acordo”.
O advogado relatou que “procurei o Beto Baba para tratar do assunto.
Foi quando fiquei sabendo da existência do documento, loteando cargos no
gabinete. Ele estava agressivo e muito nervoso e ameaçava levar ao
conhecimento público o documento original, que ele guarda consigo. Foi
estabelecido um acordo e eu redigi um documento de quitação de pagamento
do acordo, no valor de R$ 550 mil”.
Ainda segundo ele, “a deputada, a irmã Luciana e mais três
seguranças, um deles meu filho, que é policial militar, foram fazer o
pagamento. Não posso afirmar se tudo foi pago. Mas, foram sacados R$ 200
mil na conta da deputada ou de seu esposo e emitido cheque, mas não
tenho informação sobre pagamentos”.
De acordo com o advogado, que atuou por 10 anos com a deputada,
“durante conversações com o Beto Baba, ele me disse que gastou mais de
R$ 350 mil na campanha e mais R$ 40 mil para custear, após a eleição,
uma viagem da parlamentar com a sua família, de férias para as praias de
João Pessoa (PB)”.
Nomeado no gabinete da parlamentar, por 10 meses, ele disse que
“filtrou” muitos projetos que considerou errados. “Na chamada Ação
Global, liberaram R$ 250 mil de início e mais R$ 450 mil para um
instituto, que era presidido pela irmã da deputada, Luciana Dermami,
nomeada inclusive na presidência desta Casa, à época”, denunciou,
acrescentando que o tal instituto teria sido adquirido pela deputada, de
terceiros, ao custo de R$ 5.000.
O passo seguinte da Comissão será receber as alegações finais, por
escrito, dos advogados de defesa. A sustentação oral, se houver
procedência na representação por quebra de decoro, será feita em
plenário, na sessão de votação do relatório. O prazo estabelecido para
as alegações finais foi estabelecido para a próxima sessão ordinária, da
quarta-feira (04).
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Autor: RONDONOTICIAS
