Augustino Lopez era dono do seringal que começava às margens do Igarapé
Misericórdia e se projetava um pouco além do Igarapé Ribeirão. Das
margens do Rio Madeira, esse seringal avançava mais de quarenta
quilômetros até nas proximidades onde hoje se localiza o distrito de
Palmeira.
Era o seringalista mais importante de
toda a região, muito mais importante e temido que seu amigo Sebastião
João Clímaco, também dono de um seringal muito maior e mais produtivo
que o seu. Augustino Lopez possuía pouco mais de cem estradas de
seringas e algumas tropas de mulas responsáveis pelo transporte de
homens, borracha e mercadorias que eram despejadas nas colocações
localizadas nos confins do seringal.
Famílias inteiras vindas do Nordeste
aportavam no Barracão do seringal, localizado um pouco acima da
confluência do Rio Madeira com o Igarapé Ribeirão, nas proximidades da
Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Era imenso, um único vão, coberto com
palhas de buriti, onde eram guardados os mantimentos, armas, munições e
eram acolhidos os que ali chegavam. Augustino Lopez era um homem rude,
de altura mediana, olhos de rapina, ostentava uma grande barba branca e
um chapéu que escondia sua calvície bastante acentuada.
No trato com seus serviçais era áspero,
grotesco e não tolerava insubordinações, muitas vezes reprimidas com
brutalidade, em alguns casos beirando à insanidade. Seringalista e
comerciante astuto, jamais foi enganado por um de seus empregados,
muitos deles desapareceram nas águas da cachoeira do Ribeirão, tentando
lhe ludibriar na pesagem das pélas de borracha.
Augustino Lopez tinha um apetite sexual
voraz, era homem de várias mulheres, de preferência cabrochas cheirando a
leite. Adorava olhar as cabrochinhas com a bacia de roupa na cabeça
andando em direção ao Ribeirão. Preferia as que tinham as ancas
volumosas, e nenhuma delas que chegou com os pais para trabalhar em seu
seringal passou ilesa pelo seu faro de bode velho insaciável.
Naquele fim de tarde de verão quando o
sol ardia e fazia ferver as águas da cachoeira, aportou em seu barracão
uma família vinda dos confins do Nordeste em busca de trabalho. O homem
era ainda muito jovem, sua esposa era de aparência mais jovem ainda, com
a pele e cabelos ressecados pelo calor árido da caatinga.
Augustino Lopez não prestou atenção no
casal que se aproximava de sua porta, boquiaberto e os olhos fixos, via
somente a cabrocha que andava inocentemente, requebrando os quadris
atrás do casal. Com ela, mais duas crianças completavam o grupo. O
homem disse ao seringalista que viera em busca de trabalho, era brabo,
mas, em pouco tempo saberia manejar todos os apetrechos que faziam
jorrar leite das árvores.
O seringalista muito solícito, atitude
rara para um homem acostumado a expulsar de sua porta, famílias
inteiras que pediam trabalho, disse ao rapaz que desde o primeiro
momento que o viu, já lhe era garantido trabalho, pois sua intuição de
homem empreendedor lhe dizia que o seu perfil era adequado para a lida
no seringal.
A família foi acomodada em uma parte
separada do barracão, onde ficariam alguns dias se ambientando às
agruras da vida no seringal, onde vicejavam índios, malária e toda
espécie de vicissitudes que acabavam por quebrantar o mais corajoso e
ousado dos homens. Em duas semanas a família partiria para a Colocação
Mucuracá, às margens do Ribeirão, distante vinte quilômetros do barracão
do seringalista.
Durante duas semanas Augustino Lopez
teve insônia, quando conseguia adormecer, quase raiando o dia, sonhava
com aquela cabrocha andando em sua direção com os seios intumescidos,
desnuda, gingando como as águas da cachoeira. Acordava com uma ereção
incomum para sua idade, essa cena se repetiu todas as noites que
antecederam a partida da família para Mucuracá.
A cabrocha tinha a aparência da
inocência, mas percebia o olhar de furacão do seringalista pregado em
seus seios e em suas ancas quando passava. A menina quando veio da
caatinga, deixou combinado um casamento com um primo que estava no
quartel, o rapaz deixaria a farda em janeiro, e no mesmo dia se lançaria
no primeiro navio que aportasse no porto mais próximo, e em poucos dias
estaria correndo atrás de sua cabrocha nas estradas de seringa de
Augustino Lopez.
Aquele jovem apaixonado jamais
imaginaria que sua noiva estava sendo cortejada pelo homem mais
poderoso, voraz e sanguinolento da região. Nenhuma moça que se casara em
suas terras teve a primeira noite de núpcias com o esposo, esse era um
momento que o seringalista fazia questão de desfrutar, o casal querendo
ou não.
A noiva saia direto da festa,
patrocinada por ele, e era levada pelos seus capangas para o seu
quarto, onde desnudo, Augustino Lopez a aguardava. Quem desobedecesse,
era atirada nas águas da cachoeira, o marido tinha os bagos cortados com
faca enferrujada para ter certeza que o cabra morreria de tétano.
Augustino Lopez não ficou gostando
nenhum pouco quando o pai da moça foi lhe falar do arranjo da filha lá
no Nordeste, pediu ao seringalista que desse serviço também para o moço
que em poucos meses aportaria no seringal. O homem, disfarçando sua
raiva, assegurou ao pai da cabrocha que o sujeito também seria bem
vindo ao seringal, onde precisa-se sempre de muitos homens, de
preferência jovens e aventureiros.
A família amanheceu pronta para partir,
mulas e mercadorias arranjadas. Um mateiro foi designado para guiá-los
até Mucuracá. No momento da partida, Augustino Lopez disse que também
seguiria com o grupo e aproveitaria a ocasião para vistoriar as demais
colocações e o trabalho dos seringueiros. Aquela atitude incomum deixou
seus capangas boquiabertos, pois durante tantos anos lhes servindo,
jamais tinham presenciado tamanha benevolência.
Era preciso caminhar durante mais de
nove horas pelos varadouros que os levariam à colocação, se não houvesse
nenhum contratempo, antes do final da tarde, estariam chegando à casa
de paxiúba erguida às margens do Ribeirão. O mateiro guiava o grupo, a
família caminhava logo atrás, apenas as duas crianças montavam uma das
mulas, depois vinham as demais com as mercadorias, em seguida Augustino
Lopez em sua montaria com arreios finos e dourados, no final, um bando
de capangas de arma em punho vigiava a comitiva.
Como haviam previsto, chegaram ao local
antes das seis horas da tarde, a esposa foi logo tratando de acender uma
trempe que existia no lugar, para preparar arroz, feijão e charque,
suficientes para todo o grupo. O marido e os capangas apearam as mulas e
descarregaram os mantimentos no pequeno alpendre, também construído de
paxiúba. Toda casa no seringal tinha aquele formato, era sempre de
assoalho, alta, fortemente protegida contra ataques de índios e onças.
Ficava sempre às margens de um igarapé e não existiam árvores nas
proximidades, para que os moradores pudessem avistar quem se
aproximasse.
A noite chegou com passos apressados e
com ela todo tipo de assovios, trinados, gritos e barulhos próprios de
uma noite na Amazônia, perto da casa um bando de guaribas entoava seus
gritos graves que podiam ser ouvidos a quilômetros de distância.
As lamparinas exalando fuligem e um
cheiro forte de querosene iluminaram o alpendre onde a esposa servia o
jantar em pequenas panelas encardidas, emolduradas por uma crosta
resinosa de sujeira. Os capangas foram designados pelo seringalista
para vigiar a casa de possíveis ataques de índios que certamente os
olhavam curiosos, escondidos nas sacupembas ou atrás das grossas
gameleiras.
Era muito comum o seringalista receber
notícias que um seringueiro seu fora atacado pelos índios, em alguns
casos, famílias inteiras eram queimadas dentro das casas após sofrerem
ataques brutais dos mura, o grupo mais feroz e violento que habitava a
região. Nesses casos, Augustino Lopez designava uma comitiva com vários
capangas, armas, munições e alimentos e durante dias atocaiava os mura
que raramente voltavam ao local do massacre.
Augustino Lopez era homem de negócios,
toda vez que uma colocação era queimada pelos mura, o prejuízo era
grande, teria que construir tudo novamente e preparar outro seringueiro
para retomar a colheita do látex naquela localidade. As ordens suas eram
para seus capangas matarem todos os que encontrassem em seu seringal e
redondezas, muitas vezes famílias inteiras, crianças, idosos e mulheres
eram dizimados e largados na floresta, a mercê dos bandos de queixadas,
ratos e urubus.
Naquela noite, Augustino Lopez armou sua
rede no melhor e mais seguro cômodo da casa, a família que se
arranjasse na outra parte, uma espécie de cozinha, sala e quarto. O pai
armou uma rede para as crianças que dormiam sempre juntas e embaixo
colocou um colchão improvisado feito de palha de coqueiro onde dormiram
pai, mãe e filha.
Augustino Lopez não conseguiu adormecer,
era a primeira vez que dormia tão próximo daquela cabrocha cheirando a
leite, tinha ganas de tomá-la à força e mandar os capangas darem cabo de
toda sua família. Mas, esse quase insano desejo era controlado quando
ele imaginava aquela menina vestida de noiva, saindo do altar da igreja e
indo em direção ao seu quarto especialmente preparado para aquela
ocasião.
Acostumado ao barulho sinfônico e
acolhedor da floresta, mais o cansaço da viagem fizeram com que o
seringalista fosse se acalmando e o sono desse lugar aos seus calafrios.
Acordou de manhã com o cheiro de café invadindo o ambiente, levantou-se
e encontrou a família já envolvida com os afazeres domésticos. Do
alpendre vislumbrou a cabrocha cheirando a leite caminhando em direção
ao igarapé, com uma bacia na cabeça e o mesmo requebrar das águas da
cachoeira.
Disse que também iria ao igarapé lavar o
rosto e se preparar para o retorno, pois ainda tinha que visitar outras
colocações. Augustino Lopez foi se aproximando devagarzinho, sem que a
cabrocha notasse sua presença, chegou bem próximo e viu a menina de
cócoras, a saia semi levantada deixando à mostra suas coxas duras da cor
de açaí maduro e apetitosas como um buriti. A menina, muito segura de
si, não temeu a proximidade do seringalista, apenas levantou-se para dá
passagem ao visitante que quase sem respirar, sentiu pela primeira vez o
perfume e o ardor daquele corpo jovem que o inebriava a ponto de
deixá-lo tonto e com as mãos suadas como se estivesse febril.
Após tomar café e comer alguns beijus
secos o seringalista e seus capangas retornaram para o barracão, antes,
disse ao seringueiro que tomasse cuidado com os índios e que mandasse
avisar caso precisasse de algum mantimento ou munição. A cabrocha não
gostava do olhar do seringalista, sentia nojo daquela barba branca e
daqueles olhos de rapina, sonhava todas as noites com seu noivo que não
tardaria chegar e deus graças a deus que aquele ser asqueroso não
demoraria a voltar para seu barracão.
Augustino Lopez levava em seu íntimo a
certeza que aquela cabrocha lhe pertencia, assim como tudo o que existia
em seu seringal, árvores, mulas, estradas, capangas e empregados.
Aquela cabrocha não pertencia aos seus pais, era propriedade sua, e
jamais deixaria que outro homem a possuísse, muito menos um morto de
fome que não tardaria a chegar ao seringal já com seu destino traçado, o
infeliz seria jogado nas águas da cachoeira no primeiro dia em que
pusesse os pés em sua propriedade.
Naquela noite, a família dormiu
tranquilamente, a ausência do Bode Velho na casa foi um alívio para
todos. Ao amanhecer, Raimundo Nonato olhou para a imensidão da floresta
com sua sinfonia de pássaros multicores e em seu íntimo pressentiu que
nem ele, nem a esposa Firmiana e nem os filhos Raimundim, Nonatim e Das
Dores, jamais deixariam aquele inferno verde vivos…
Autor: Simon O. dos Santos
Mestre em Ciências da Linguagem e membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL
Nota do autor: Este conto está dividido em três capítulos que serão
publicados em três domingos seguidos. ” Quem conta um conto aumenta um
ponto”.
