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domingo, 8 de setembro de 2013

MINHA FILHA NÃO É MERCADORIA - Por Simon O. dos Santos

Augustino Lopez era dono do seringal que começava às margens do Igarapé Misericórdia e se projetava um pouco além do Igarapé Ribeirão. Das margens do Rio Madeira, esse seringal avançava mais de quarenta quilômetros até nas proximidades onde hoje se localiza o distrito de Palmeira.

 
Era o seringalista mais importante de toda a região, muito mais importante e temido que seu amigo Sebastião João Clímaco, também dono de um seringal muito maior e mais produtivo que o seu. Augustino Lopez possuía pouco mais de cem estradas de seringas e algumas tropas de mulas responsáveis pelo transporte de homens, borracha e mercadorias que eram despejadas nas colocações localizadas nos confins do seringal. 

Famílias inteiras vindas do Nordeste aportavam no Barracão do seringal, localizado um pouco acima da confluência do Rio Madeira com o Igarapé Ribeirão,  nas proximidades da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Era imenso, um único vão, coberto com palhas de buriti, onde eram guardados os mantimentos, armas, munições e eram acolhidos os que ali chegavam.  Augustino Lopez era um homem rude, de altura mediana, olhos de rapina, ostentava uma grande barba branca e um chapéu que  escondia sua calvície bastante acentuada.

No trato com seus serviçais era áspero, grotesco e não tolerava insubordinações, muitas vezes reprimidas com brutalidade,  em alguns casos beirando  à insanidade. Seringalista e comerciante astuto, jamais foi enganado por um de seus empregados, muitos deles desapareceram nas águas da cachoeira do Ribeirão, tentando lhe ludibriar na pesagem das pélas de borracha.

Augustino Lopez tinha um apetite sexual voraz, era homem de várias mulheres, de preferência cabrochas cheirando a leite. Adorava olhar as cabrochinhas com a bacia de roupa na cabeça andando em direção ao Ribeirão. Preferia as que tinham as ancas volumosas, e nenhuma delas que chegou com os pais para trabalhar em seu seringal passou ilesa pelo seu faro de bode velho insaciável.

Naquele fim de tarde de verão quando o sol ardia e fazia ferver as águas da cachoeira, aportou em seu barracão uma família vinda dos confins do Nordeste em busca de trabalho. O homem era ainda muito jovem, sua esposa era de aparência mais jovem ainda, com a pele e cabelos ressecados pelo calor árido da caatinga.

Augustino Lopez não prestou atenção no casal que se aproximava de sua porta, boquiaberto e os olhos fixos, via somente a cabrocha que andava inocentemente, requebrando os quadris  atrás do casal. Com ela, mais duas crianças completavam o grupo. O homem disse ao seringalista que viera em busca de trabalho, era brabo, mas, em pouco tempo saberia manejar todos os apetrechos que faziam jorrar leite das árvores.
O seringalista muito solícito, atitude rara para um homem acostumado a expulsar de sua porta,  famílias inteiras que pediam trabalho, disse ao rapaz que desde o primeiro momento que o viu, já lhe era garantido trabalho, pois sua intuição de homem empreendedor lhe dizia que o seu perfil era adequado para a lida no seringal.

A família foi acomodada em uma parte separada do barracão, onde ficariam alguns dias se ambientando às agruras da vida no seringal, onde vicejavam índios, malária e toda espécie de vicissitudes que acabavam por quebrantar o mais corajoso e ousado dos homens. Em duas semanas a família partiria para a Colocação Mucuracá, às margens do Ribeirão, distante vinte quilômetros do barracão do seringalista.

Durante duas semanas Augustino Lopez teve insônia, quando conseguia adormecer, quase raiando o dia, sonhava com aquela cabrocha andando em sua direção com os seios intumescidos, desnuda, gingando como as águas da cachoeira. Acordava com uma ereção incomum para sua idade, essa cena se repetiu todas as noites que antecederam a partida da família para Mucuracá.

 A cabrocha tinha a aparência da inocência, mas percebia o olhar de furacão do seringalista pregado em seus seios e em suas ancas quando passava. A menina quando veio da caatinga, deixou combinado um casamento com um primo que estava no quartel, o rapaz deixaria a farda em janeiro, e no mesmo dia se lançaria no primeiro navio que aportasse no porto mais próximo, e em poucos dias estaria correndo atrás de sua cabrocha nas estradas de seringa de Augustino Lopez.

Aquele jovem apaixonado jamais imaginaria que sua noiva estava sendo cortejada pelo homem mais poderoso, voraz e sanguinolento da região. Nenhuma moça que se casara em suas terras teve a primeira noite de núpcias com o esposo, esse era um momento que o seringalista fazia questão de desfrutar, o casal querendo ou não.

 A noiva saia direto da festa, patrocinada por ele,  e era levada pelos seus capangas  para o seu quarto, onde desnudo, Augustino Lopez a aguardava. Quem desobedecesse, era atirada nas águas da cachoeira, o marido tinha os bagos cortados com faca enferrujada para ter certeza que o cabra morreria de tétano.

Augustino Lopez não ficou gostando nenhum pouco quando o pai da moça foi lhe falar do arranjo da filha lá no Nordeste, pediu ao seringalista que desse serviço também para o moço que em poucos meses aportaria no seringal. O homem,  disfarçando sua raiva,  assegurou ao pai da cabrocha que o sujeito também seria bem vindo ao seringal, onde  precisa-se sempre de muitos homens, de preferência jovens e aventureiros.

A família amanheceu pronta para partir, mulas e mercadorias arranjadas. Um mateiro foi designado para guiá-los até  Mucuracá. No momento da partida, Augustino Lopez disse que também seguiria com o grupo e aproveitaria a ocasião para vistoriar as demais colocações e o trabalho dos seringueiros. Aquela atitude incomum deixou seus capangas boquiabertos, pois durante tantos anos lhes servindo, jamais tinham presenciado tamanha benevolência.

Era preciso caminhar durante mais de nove horas pelos varadouros que os levariam à colocação, se não houvesse nenhum contratempo, antes do final da tarde, estariam chegando à casa de paxiúba erguida às margens do Ribeirão. O mateiro guiava o grupo, a família caminhava logo atrás, apenas as duas crianças montavam uma das mulas, depois vinham as demais com as mercadorias, em seguida Augustino Lopez  em sua montaria com arreios finos e dourados, no final, um bando de capangas de arma em punho vigiava a comitiva.

Como haviam previsto, chegaram ao local antes das seis horas da tarde, a esposa foi logo tratando de acender uma trempe que existia no lugar, para preparar arroz, feijão e charque, suficientes para todo o grupo. O marido e os capangas apearam as mulas e descarregaram os mantimentos no pequeno alpendre, também construído de paxiúba. Toda casa no seringal tinha aquele formato, era sempre de assoalho, alta, fortemente protegida contra ataques de índios e onças. Ficava sempre às margens de um igarapé e não existiam árvores nas proximidades, para que os moradores  pudessem avistar quem se aproximasse.

A noite chegou com passos apressados e com ela todo tipo de assovios, trinados, gritos e barulhos próprios de uma noite na Amazônia, perto da casa um bando de guaribas entoava seus gritos graves  que podiam ser ouvidos a quilômetros de distância.

As lamparinas exalando fuligem e um cheiro forte de querosene iluminaram o alpendre onde a esposa servia o jantar em pequenas panelas encardidas, emolduradas por uma crosta resinosa de sujeira.  Os capangas foram designados pelo seringalista para vigiar a casa de possíveis ataques de índios que certamente os olhavam curiosos, escondidos nas sacupembas ou atrás das grossas gameleiras.

Era muito comum o seringalista receber notícias que um seringueiro seu fora atacado pelos índios, em alguns casos, famílias inteiras eram queimadas dentro das casas após sofrerem ataques  brutais dos mura, o grupo mais feroz e violento que habitava a região. Nesses casos, Augustino Lopez designava uma comitiva com vários capangas, armas, munições e alimentos e durante dias atocaiava os mura que raramente voltavam ao local do massacre.

Augustino Lopez era homem de negócios, toda vez que uma colocação era queimada pelos mura, o prejuízo era grande, teria que construir tudo novamente e preparar outro seringueiro para retomar a colheita do látex naquela localidade. As ordens suas eram para seus capangas matarem todos os que encontrassem em seu seringal e redondezas, muitas vezes famílias inteiras, crianças, idosos e mulheres eram dizimados e largados na floresta, a mercê dos bandos de queixadas, ratos e urubus.

Naquela noite, Augustino Lopez armou sua rede no melhor e mais seguro cômodo da casa, a família que se arranjasse na outra parte, uma espécie de cozinha, sala e quarto. O pai armou uma rede para as crianças que dormiam sempre juntas e embaixo colocou  um colchão improvisado feito de palha de coqueiro onde dormiram pai, mãe e filha.

Augustino Lopez não conseguiu adormecer, era a primeira vez que dormia tão próximo daquela cabrocha cheirando a leite, tinha ganas de tomá-la à força e mandar os capangas darem cabo de toda sua família. Mas, esse quase insano desejo era controlado quando ele imaginava aquela menina vestida de noiva, saindo do altar da igreja e indo em direção ao seu quarto especialmente preparado para aquela ocasião.

Acostumado ao barulho sinfônico e acolhedor da floresta, mais o cansaço da viagem fizeram com que o seringalista fosse se acalmando e o sono desse lugar aos seus calafrios. Acordou de manhã com o cheiro de café invadindo o ambiente, levantou-se e encontrou a família já envolvida com os afazeres domésticos. Do alpendre vislumbrou a cabrocha cheirando a leite caminhando em direção ao igarapé, com uma bacia na cabeça e o mesmo requebrar das águas da cachoeira.

Disse que também iria ao igarapé lavar o rosto e se preparar para o retorno, pois ainda tinha que visitar outras colocações. Augustino Lopez foi se aproximando devagarzinho, sem que a cabrocha notasse sua presença, chegou bem próximo e viu a menina de cócoras, a saia semi levantada deixando à mostra suas coxas duras da cor de açaí maduro e apetitosas como um buriti. A menina, muito segura de si, não temeu a proximidade do seringalista, apenas levantou-se para dá passagem ao visitante que quase sem respirar, sentiu pela primeira vez o perfume e o ardor daquele corpo jovem que o inebriava a ponto de deixá-lo tonto e com as mãos suadas como se estivesse febril.

Após tomar café e comer alguns beijus secos o seringalista e seus capangas retornaram para o barracão, antes, disse ao seringueiro que tomasse cuidado com os índios e que mandasse avisar caso precisasse de algum mantimento ou munição. A cabrocha não gostava do olhar do seringalista, sentia nojo daquela barba branca e daqueles olhos de rapina, sonhava todas as noites com seu noivo que não tardaria chegar e deus graças a deus que aquele ser asqueroso não demoraria a voltar para seu barracão.

Augustino Lopez levava em seu íntimo a certeza que aquela cabrocha lhe pertencia, assim como tudo o que existia em seu seringal, árvores, mulas, estradas, capangas e empregados.  Aquela cabrocha não pertencia aos seus pais, era propriedade sua, e jamais deixaria que outro homem a possuísse, muito menos um morto de fome que não tardaria a chegar ao seringal já com seu destino traçado, o infeliz seria jogado nas águas da cachoeira no primeiro dia em que pusesse os pés em sua propriedade.

Naquela noite, a família dormiu tranquilamente, a ausência do Bode Velho na casa foi um alívio para todos. Ao amanhecer, Raimundo Nonato olhou para a imensidão da floresta com sua sinfonia de pássaros multicores e em seu íntimo pressentiu que nem ele, nem a esposa Firmiana e nem os filhos Raimundim, Nonatim e Das Dores, jamais deixariam aquele inferno verde vivos…

Autor: Simon O. dos Santos
Mestre em Ciências da Linguagem e membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL
Nota do autor: Este conto está dividido em três capítulos que serão publicados em três  domingos seguidos. ” Quem conta um conto aumenta um ponto”.